Neste blog são publicadas as dicas de português preparadas sob medida para a Redação do UOL
“Considerado um movimento religioso – e não uma dança – o giro sufi, no qual a pessoa gira sem parar em torno do próprio corpo, chegou à Capadócia no século 13 quando, reza a lenda, Mevlana, filha de um filósofo afegão e adepta dessa prática considerada sagrada, para lá foi para fugir dos ataques mongóis.”
Empregar a pontuação corretamente pressupõe compreender as relações entre os termos da oração, entre as orações do período, entre os períodos que compõem o parágrafo, enfim, entre as partes do texto.
No trecho em questão, faltam vírgulas – e vamos entender por quê. O período não está na ordem direta, o que se percebe pela colocação do predicativo do sujeito logo no seu início. Predicativo do sujeito é o nome que se dá a uma característica ou atributo circunstancial do sujeito (no caso, a expressão “considerado um movimento religioso – e não uma dança –”). Posto no início, esse elemento se separa do sujeito por meio de uma vírgula. O fato de haver um intercalação entre travessões não interfere na colocação dessa vírgula.
O segundo trecho que requer pontuação está em “no século 13, quando...”. Observe que a oração encabeçada pela conjunção “quando” indica tempo (é um adjunto adverbial de tempo oracional ou oração subordinada adverbial temporal). Importa aqui perceber que a época em que Mevlana foi para a Capadócia para fugir dos ataques mongóis é o século 13. Há uma relação de identidade entre as duas informações. Em outras palavras, a oração temporal funciona como aposto de “século 13”, daí a necessidade da vírgula.
Finalmente, o terceiro trecho que requer vírgula é “adepta dessa prática, considerada sagrada”. Aqui a vírgula separa um termo de caráter explicativo. O caso é um pouco mais sutil, mas, lançando mão de uma oposição, fica fácil perceber a diferença entre termos explicativos (separados por vírgula) e termos restritivos. Vejam-se as seguintes construções: (a) Ela é adepta de uma prática considerada sagrada; (b) Ela é adepta dessa prática [já mencionada antes], [que é] considerada sagrada . Em (a), a expressão “considerada sagrada” tem valor restritivo porque o substantivo “prática” é antecedido de um artigo indefinido; em (b), tem valor explicativo porque o substantivo “prática” já é determinado pelo pronome “dessa”, sendo a expressão uma segunda caracterização – daí o uso da vírgula.
Abaixo, o texto pontuado:
Considerado um movimento religioso – e não uma dança –, o giro sufi, no qual a pessoa gira sem parar em torno do próprio corpo, chegou à Capadócia no século 13, quando, reza a lenda, Mevlana, filha de um filósofo afegão e adepta dessa prática, considerada sagrada, para lá foi para fugir dos ataques mongóis.
Thaís Nicoleti às 17h49
"Ahmadinejad irá usar as imagens da visita como prova de que o mundo o aceita como o líder legítimo do Irã, o que minará os oponentes democráticos do regime no Irã e encorajará a linha-dura iraniana a recusar um compromisso no tema nuclear."
O “Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa”, em sua 5ª edição (pós-acordo, portanto), registra o substantivo “linha-dura”, mas não a expressão “linha dura”, fato que levou a certa confusão de interpretação.
Na verdade, não houve mudança quanto a esse ponto. A expressão “linha dura”, sem hífen, empregada especialmente em política e religião, continua sendo uma linha de pensamento radical ou uma “linha de ação coercitiva, que prioriza o cumprimento severo de regras e normas drásticas de repressão aos que se opõem a regimes autoritários” (Houaiss).
Já a grafia “linha-dura”, com hífen, emprega-se tanto para o adjetivo (relativo ou pertencente à linha dura) como para o substantivo (que ou quem é partidário ou simpatizante da linha dura).
Dessa forma, escrevemos com hífen frases como as seguintes:
Ele é considerado um líder linha-dura. (adjetivo)
Ele é um linha-dura. (substantivo)
Já o fragmento em epígrafe traz uma referência à própria linha dura na condição de política radical. Assim:
Ahmadinejad irá usar as imagens da visita como prova de que o mundo o aceita como o líder legítimo do Irã, o que minará os oponentes democráticos do regime no Irã e encorajará a linha dura iraniana a recusar um compromisso no tema nuclear.
Thaís Nicoleti às 17h37
“Se os dois países se unissem, nem um dos dois resistiria à pressão conjunta.”
“Nenhum” e “nem um”, embora sejam formas parecidas, empregam-se em diferentes situações. Cumpre lembrar, em primeiro lugar, que “nenhum” é um pronome indefinido e, nessa condição, opõe-se a “algum”. Na sequência “nem um”, “um” não é um pronome indefinido, mas um numeral (opõe-se, portanto, a “dois”, “três” etc.).
Talvez a melhor forma de perceber a distinção na prática seja criar pares opositivos. Assim: “Não havia nenhum documento na gaveta” ou “Havia algum documento na gaveta”; “Nenhum de nós conseguiria fazer aquilo” ou “Algum de nós conseguiria fazer aquilo”; “Esta moeda não tem nenhum valor” ou “esta moeda não tem valor algum”.
A construção “nem um” equivale a “nem mesmo um” ou a “nem sequer um” e refere-se necessariamente a grandezas contáveis. Assim: “Não tinha nem [sequer] uma hora do dia para dedicar aos filhos”, “Não lhe deram nem [sequer] um centavo a mais”.
No caso, seria adequado o uso do pronome indefinido, que indica que nenhum (totalidade exclusiva) dos países em questão resistiria à pressão ou, dito de outra forma, nem um nem outro resistiriam à pressão conjunta.
Se os dois países se unissem, nenhum dos dois resistiria à pressão conjunta.
Thaís Nicoleti às 17h32
“A portaria do Ministério do Esporte tornou possível a adequação da lei aos procedimentos contratuais da Petrobras, que preveem a liberação dos recursos à medida em que são comprovadas as contrapartidas e a realização efetiva o projeto.”
No fragmento acima, ocorre o emprego abusivo da preposição “em”. É possível que o deslize decorra da falsa percepção da partícula “que” como pronome relativo.
Importa saber, entretanto, que “à medida que” é uma locução conjuntiva, portanto uma expressão fixa, cuja função é encabeçar orações subordinadas que estabeleçam com uma oração principal a ideia de proporção.
“À medida que” tem o mesmo valor de “ao passo que”: “À medida que o tempo passa, as árvores envelhecem”, “Tornava-se mais compreensivo ao passo que amadurecia”. A partícula “que”, nesses casos, tem valor de conjunção, não de pronome relativo, daí não ser antecedida de preposição. É o mesmo que ocorre em outras locuções, de diferentes valores semânticos: “Logo que chegou de viagem, telefonou-lhe”, “Faria tudo por ele desde que ouvisse seus conselhos”, “Ainda que tivesse tempo, não os atenderia” etc.
Abaixo, o texto corrigido:
A portaria do Ministério do Esporte tornou possível a adequação da lei aos procedimentos contratuais da Petrobras, que preveem a liberação dos recursos à medida que são comprovadas as contrapartidas e a realização efetiva o projeto.
Thaís Nicoleti às 15h51
“Mal comparando, esse colapso tem algo em comum com o blecaute da semana passada e com o caso paralelo da viga que desabou no Rodoanel.”
O uso de uma ou outra preposição pode alterar o sentido de uma afirmação. O verbo “desabar”, por exemplo, admite diferentes construções, mas é preciso estar atento ao sentido pretendido.
É possível desabar de, em ou sobre. As preposições é que vão indicar o ponto de partida ou o ponto de chegada daquilo que desabou. Em outras palavras, alguma coisa desaba do lugar onde está sobre outro lugar.
Assim, “a viga que desabou no Rodoanel” parece ter caído (não se sabe de onde) sobre o anel rodoviário. A intenção do texto, entretanto, era dizer que a viga “desabou do Rodoanel” sobre os automóveis que estavam na pista.
É um pormenor, mas tem sua importância. Veja, abaixo, o texto corrigido:
Mal comparando, esse colapso tem algo em comum com o blecaute da semana passada e com o caso paralelo da viga que desabou do Rodoanel.
Thaís Nicoleti às 19h10
“Dinho segue internado na UTI”
Cada vez mais comum nos textos da imprensa, o verbo “seguir” é usado como se fosse um verbo de ligação, sinônimo de “continuar”. Esse emprego não tem registro na norma culta – pelo menos, por enquanto.
Há quem siga um suspeito, há quem siga os ensinamentos de um guru, há quem siga a carreira universitária, há quem siga os passos de outrem etc. O fato é que “seguir” não é um sinônimo de “continuar”, não indica o aspecto de permanência de estado.
Numa frase como “fulano seguia cansado pela rua”, justifica-se o emprego do verbo porque a pessoa, de fato, caminhava, coisa que não se verifica na construção empregada no título.
Abaixo, uma sugestão:
Dinho continua internado na UTI
Thaís Nicoleti às 19h15
“Um elemento fundamental no grafite é seu diálogo com o espaço urbano, marcado pela poluição visual e sonora das cidades, transformando-o e a ele agregando, em alguns casos, carga poética, como n’Osgêmeos, ou política, como em tantos outros pixadores e grafiteiros.”
“X” ou “ch”? A questão parece das mais simples, mas, ainda assim, vez ou outra, ocorrem alguns “escorregões”. É bem verdade que as regras ortográficas de emprego do “x” ou do “ch”, além de terem exceções, não são suficientes para explicar todos os casos.
Sabemos, por exemplo, que, depois das sílabas “en-” e “me-”, aparece o “x”, não o dígrafo “ch”– pelo menos, na maior parte dos casos (enxada, enxame, enxoval, enxovia, mexilhão, mexer, mexerica etc.). “Encher”, “enchente”, “enchiqueirar”, “mecha” são exceções.
No decorrer da história da língua, na passagem do latim ao português, as sequências “pl” e “fl”, por exemplo, em alguns casos, transformaram-se em “ch” (plumbum – chumbo, pluvia – chuva, plenus – cheio, planus – chão, flamma – chama, flagrare – cheirar etc.).
Há casos, entretanto, em que é a influência de outras línguas modernas que traz o “ch” ao português. Do inglês “check”, por exemplo, vem a palavra “cheque” – e desta o verbo “checar”. E aqui um parêntese: de influência árabe, é a palavra “xeque”, que aparece em “xeque-mate” e na expressão “pôr em xeque”.
De volta ao inglês, encontramos “pitch”, que é o nome de certa resina de cor negra e consistência pegajosa, obtida da destilação do alcatrão ou da terebintina. Em português, “pitch” assumiu a forma “piche”. De “piche”, “pichador” – com “ch”, não com “x”.
Abaixo, o texto corrigido:
Um elemento fundamental no grafite é seu diálogo com o espaço urbano, marcado pela poluição visual e sonora das cidades, transformando-o e a ele agregando, em alguns casos, carga poética, como n’Osgêmeos, ou política, como em tantos outros pichadores e grafiteiros.
Thaís Nicoleti às 17h15
“Policiais erram e entram em casa vizinha a que era roubada”
O estilo jornalístico aboliu boa parte dos artigos (não todos, é verdade) em títulos. Com base nisso, muitos redatores ficam com a impressão (falsa) de que a crase jamais ocorrerá nas manchetes.
No título em questão, ocorre crase (fusão) da preposição “a” (ser vizinho a algo) com o pronome demonstrativo “a”. É impossível eliminar da frase o pronome, que, no lugar da repetição da palavra “casa”, é o antecedente do pronome relativo “que”. Assim, não há hipótese de, numa construção como essa, não ocorrer a crase.
Para facilitar o raciocínio, é possível substituir “casa” por “prédio”: “Policiais erram e entram em prédio vizinho ao que era roubado”. Ninguém pensaria em eliminar o “o”, pois não se trata de artigo, mas de pronome demonstrativo.
Veja, abaixo, a correção:
Policiais erram e entram em casa vizinha à que era roubada
Thaís Nicoleti às 16h02
“... uma prova de que há diferenças que resistem a quaisquer desejo e esforço de integração, inatas, no âmago do indivíduo, até explodirem um dia.”
A questão de hoje envolve a concordância nominal, ou seja, o acordo de gênero e número entre substantivos e adjetivos. Cabe ao adjetivo concordar com o substantivo a que se refere. Daí dizermos “duzentos gramas”, por exemplo, fazendo o numeral adjetivo concordar com o substantivo masculino “gramas”.
Há casos, porém, em que um mesmo adjetivo é atribuído simultaneamente a mais de um substantivo. Como fazer, então, a concordância? Isso dependerá da posição ocupada pelo adjetivo.
Assim, se estiver posposto aos substantivos, o adjetivo poderá ir para o plural ou concordar apenas com o substantivo que lhe estiver mais próximo. Assim: “Vestia calça e camisa preta” ou “Vestia calça e camisa pretas” – sem distinção de sentido. Caso os substantivos sejam de gêneros diferentes, o adjetivo irá para o plural no gênero masculino. Assim: “Vestia calça e paletó preto” ou “Vestia calça e paletó pretos” – ambas as construções guardam o mesmo sentido.
Se, entretanto, estiver anteposto a dois ou mais substantivos, o adjetivo concordará necessariamente com o elemento mais próximo. Assim: “Ele escolheu má hora e lugar para o encontro” – tanto a hora como o lugar eram impróprios para o encontro. Não há possibilidade de flexionar o adjetivo nessa construção porque ele está anteposto aos substantivos aos quais se refere.
É esse o caso da construção destacada no fragmento em epígrafe, na qual o pronome indefinido de valor adjetivo “qualquer” foi flexionado para concordar com os dois substantivos. Dada a sua posição, deveria concordar com o elemento mais próximo (“desejo”), permanecendo no singular: “qualquer desejo e esforço”.
Só se usa o plural para o adjetivo anteposto a dois ou mais substantivos quando estes são nomes próprios de pessoas ou exprimem graus de parentesco. Assim: “Os geniais Chico e Caetano participaram do debate”, “Conheci ontem as encantadoras prima e irmã de Charles”.
Vale ainda observar que, caso tenha valor de predicativo (qualidade ou condição circunstancial), o adjetivo não concordará por atração, devendo-se, portanto, fazer a sua flexão. Assim: “Julgou inocentes o réu e a ré”.
Abaixo, o texto corrigido:
... uma prova de que há diferenças que resistem a qualquer desejo e esforço de integração, inatas, no âmago do indivíduo, até explodirem um dia.
Thaís Nicoleti às 16h55
“Teve início às 9h43 (horário de Brasília) desta terça-feira (10), no Fórum de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, o julgamento do traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar.”
O emprego do artigo antes de nomes de Estados, de países ou mesmo de cidades é vinculado ao uso tradicionalmente estabelecido. Não existem regras de natureza lógica que regulem isso com precisão, como, aliás, ocorre em muitos outros usos idiomáticos.
Sabemos que países como Portugal, Israel, Angola, Cabo Verde, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor não admitem a anteposição dos artigos, diferentemente dos demais.
Os nomes das cidades, com raras exceções, não são antecedidos de artigo. Assim: “Viajou a Milão”, “Veio de Paris”, “Nunca esteve em Lisboa” etc. São exceções consagradas as cidades do Porto (Portugal), do Cairo (Egito), do Rio de Janeiro e do Recife (esta aparece das duas formas, com e sem o artigo).
Já os Estados brasileiros, em sua maioria, são antecedidos de artigo, mas há alguns que repelem o determinante. São eles: Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pernambuco, Rondônia, Roraima, Santa Catarina, São Paulo e Sergipe.
Antes dos nomes dos Estados de Alagoas e de Minas Gerais também não se usa o artigo na maior parte das vezes – em algumas situações, normalmente de uso afetivo, esses nomes aparecem determinados por artigos: as Minas Gerais e as Alagoas. Em textos jornalísticos, porém, não se verifica esse tipo de construção.
Abaixo, o texto corrigido:
Teve início às 9h43 (horário de Brasília) desta terça-feira (10), no Fórum de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, o julgamento do traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar.
Thaís Nicoleti às 16h54
"Presos acordam em permanecer em cadeia danificada"
O título acima, de uma reportagem publicada na Folha, suscitou a pergunta de um leitor: “Por acaso, eles estavam dormindo?”. Não, não estavam. O verbo “acordar” tem vários sentidos e pode aparecer em diferentes construções.
A acepção mais frequente é, de fato, a de despertar, de sair do sono: “Fulano acordou cedo”, “Fulano acordou-se pela manhã disposto a mudar de vida”, “Fulano acordou de um estado letárgico” etc. Note-se que a construção pronominal (“acordar-se”) é um brasileirismo, provavelmente nascido de analogia com outros verbos pronominais, como “levantar-se” ou “sentar-se”.
“Acordar” pode ainda ter o sentido aproximado de “recordar” (ou de “trazer à memória”) em construções do tipo “Aquelas fotografias lhe acordavam lembranças de outros tempos”.
O caso em questão, no entanto, é o do verbo “acordar” ligado à ideia de “acordo”, de “concordar”. Nesse sentido, o verbo rege complemento introduzido pela preposição “em”. Assim: “Acordaram nas cláusulas do contrato” ou “Acordaram em manter os preços inalterados” etc.
Vê-se, portanto, que não há erro nenhum no título.
Thaís Nicoleti às 16h53
“Com óculos especiais, descobrimos onde o 3D pode, um dia, chegar.”
“Queremos, em todo caso, ver onde vai dar essa história.”
O advérbio e pronome relativo “onde” pode, sim, ser antecedido de preposição. “Onde” equivale a “lugar em que”, “de onde” (ou “donde”) equivale a “lugar de que”, “aonde”, a “lugar a que”, “por onde”, a “lugar por onde” etc.
Assim, são corretas construções como “Não sei de onde vem tanto talento!”, “Conte-nos por onde passou em sua viagem à Europa”, “É preciso que ele deixe claro aonde pretende chegar com isso”. Observe que a preposição é determinada pelo verbo posterior ao “onde”: alguém vem de algum lugar, portanto “de onde vem...”; alguém passa por algum lugar, portanto “por onde passa...”; alguém pretende chegar a algum lugar, portanto “aonde pretende chegar...”.
Como se vê, a preposição “a” aglutina-se ao advérbio/ pronome. Na linguagem oral, ouve-se a forma “daonde” (“Daonde é que você tirou isso?”), que, simples corruptela de “de onde”, não tem lugar na norma culta do idioma.
No primeiro dos fragmentos acima, o verbo “chegar” (de movimento), que se constrói com complemento introduzido pela preposição “a”, leva à forma “aonde”; no segundo, o verbo “dar”, no sentido de resultar, rege complemento introduzido pela preposição “em” (alguma coisa dá em outra, isto é, resulta em outra), portanto a forma “onde” está correta. Abaixo, a correção:
Com óculos especiais, descobrimos aonde o 3D pode, um dia, chegar.
Queremos, em todo caso, ver onde vai dar essa história.
Thaís Nicoleti às 16h10
“É também o local por onde passam boa parte dos soldados que voltam do combate.”
O verbo concorda em número e pessoa com o núcleo do sujeito. Essa é a regra geral de concordância verbal no português. Há casos, entretanto, que costumam suscitar dúvidas. Um deles é o dos sujeitos constituídos de expressões partitivas (a maioria de, grande parte de, boa parte de etc.) seguidas de um elemento no plural.
Nesses casos, há duas possibilidades de concordância verbal. O verbo tanto pode permanecer no singular, concordando com o núcleo do sujeito (representado pela expressão partitiva) como pode ir para o plural, concordando com o elemento que lhe é mais próximo (concordância atrativa). Assim: “Boa parte dos soldados volta” ou “Boa parte dos soldados voltam”; “Boa parte dos soldados passa” ou “Boa parte dos soldados passam”.
Ocorre que, para que essa regra funcione dessa maneira, é preciso que o verbo esteja posposto ao sujeito. O raciocínio é o seguinte: a concordância gramatical (com o núcleo da expressão) está correta em qualquer circunstância, pois obedece ao princípio geral de concordância, mas a concordância atrativa só se justifica pela proximidade com o termo pluralizado.
É por isso que, no fragmento acima, não se justifica a forma “passam” anteposta a “boa parte dos soldados”. Nessa posição, o elemento mais próximo é o núcleo do sujeito (“parte”), portanto só cabe o singular: “por onde passa boa parte dos soldados”.
Vale ainda uma observação sobre o segundo verbo do período (“voltam”), corretamente empregado no plural. Note-se que o sujeito de “voltam” é o pronome relativo “que”, cujo antecedente é o termo “soldados”, daí o plural. Os soldados voltam do combate; boa parte deles passa pelo local.
Veja abaixo o texto corrigido:
É também o local por onde passa boa parte dos soldados que voltam do combate.
Thaís Nicoleti às 18h02
“...recorreu à tecnologia chamada de ‘performance capture’, que capta movimentos dos atores por computador, numa espécie de animação hiperrealista.”
Prova de que as mudanças advindas da reforma ortográfica ainda não assentaram é o tipo de erro de grafia do trecho acima. No imaginário de muita gente, os dois “rr” agora se juntam definitivamente. Errado.
Vamos entender a questão. As palavras que passaram a ser escritas com “rr” são aquelas formadas de prefixos terminados em vogal seguidos de termos iniciados pela letra “r”, como é o caso de “autorretrato” (auto + retrato). Isso decorre do fato de que, entre duas vogais, um “r” ou dois “rr” levam a pronúncias diferentes (“caro” é diferente de “carro”).
A reforma criou uma regra simplificadora: se a letra final do prefixo for idêntica à inicial do termo subsequente, haverá hífen. Assim: contra-ataque, entre-eixos, arqui-inimigo, micro-ondas, sub-bibliotecário, pan-negritude, circum-murado, ad-digital, hiper-realista etc. Foge a essa regra apenas o prefixo “trans-”, que se aglutina com o termo posterior, desde que este não se inicie por “h”. Daí “transexual”, mas “trans-histórico”.
Vale ainda a observação, a título de lembrete, de que os prefixos terminados em “r” não sofreram alteração com a reforma. Continuam requerendo o hífen diante de “r” e “h”. Assim: super-requintado, inter-regional, super-homem, super-herói etc. Nos demais casos, basta fazer a aglutinação: interestadual, superexposição, cibercafé, nupercasado (sinônimo de “recém-casado”), hiperativo etc.
Abaixo, o texto corrigido:
...recorreu à tecnologia chamada de “performance capture”, que capta movimentos dos atores por computador, numa espécie de animação hiper-realista.
Thaís Nicoleti às 18h21
“A secretaria abriu processo administrativo ontem para apurar a responsabilidade pelo episódio, que deve ser concluído em 30 dias.” Mais uma vez, voltamos ao tema da ordem dos termos na frase. Nem sempre a sequência dos elementos obedece a critérios subjetivos ou de estilo. Há casos em que existe uma ordem necessária – o aposto, por exemplo, deve seguir-se ao termo fundamental. O mesmo vale para a oração adjetiva (encabeçada por um pronome relativo), que deve seguir-se ao termo a que se refere (o pronome relativo retoma o antecedente). No caso em questão, a oração subordinada adjetiva explicativa (“que deve ser concluído em 30 dias”) refere-se ao processo administrativo aberto pela secretaria para apurar a responsabilidade pelo referido episódio, mas, na ordem escolhida pelo redator, o pronome retoma o termo “episódio”, como se este devesse ser concluído em 30 dias. É claro que o leitor acaba entendendo o que quis dizer o redator, mas, para isso, tem de rearranjar os termos, reestruturando mentalmente o texto. Abaixo, segue uma sugestão de reformulação do texto. Outras são possíveis desde que a oração adjetiva venha imediatamente depois da expressão “processo administrativo”. Ontem, para apurar a responsabilidade pelo episódio, a secretaria abriu um processo administrativo, que deve ser concluído em 30 dias.
Thaís Nicoleti às 16h19