Neste blog são publicadas as dicas de português preparadas sob medida para a Redação do UOL

13/01/2012

Ambiguidade: evite esse defeito de construção sintática

Macarrão levou Eliza Samudio para ser morta por amar Bruno, diz advogado do goleiro

O título jornalístico acima bem ilustra um defeito de construção sintática conhecido como “ambiguidade”. Dada a sua estrutura, o texto permite duas leituras.

Vamos entender por que isso ocorre: observe que a oração infinitiva “por amar Bruno”, de caráter adverbial (exprime a causa de algo), pode modificar qualquer uma das duas formas verbais mencionadas anteriormente (“levou” ou “ser morta”).

Em outras palavras, ou Macarrão levou Eliza Samudio ao local em que seria morta porque ele amava Bruno, ou Eliza Samudio foi morta por amar Bruno. Na prática, fica a pergunta: quem amava Bruno?

Independentemente de quem amasse mais o goleiro Bruno, o fato é que a leitura da notícia nos permite compreender que o rapaz que atende pelo apelido de “Macarrão” era quem amava o goleiro e, em razão desse sentimento, na versão do referido advogado, levou Eliza ao local onde seria morta.

Para que o leitor compreendesse o inusitado argumento do advogado já na primeira leitura, bastaria ao redator mudar a posição da oração infinitiva. Posta no início do período, imediatamente antes do sujeito representado por “Macarrão”, a oração só poderia referir-se à ação praticada por ele. Assim:

 

Por amar Bruno, Macarrão levou Eliza Samudio para ser morta, segundo o advogado do goleiro

 

 

09/01/2012

“Por hora” é diferente de “por ora”

 “A Ford não irá renovar o EcoSport à toa. Em alta, o mercado de jipinhos urbanos ganhou novos concorrentes em pouco tempo.

Por hora, os principais rivais que a próxima geração do Ford encontrará pela frente são Citroën Aircross e Renault Duster, que marcaram a estreia das montadoras francesas nessa briga.”

“Por hora” é diferente de “por ora”. “Hora”, com h, é um intervalo de 60 minutos, enquanto “ora” equivale a “agora” ou “neste momento”. É a forma “ora” que integra a expressão “por ora”, equivalente a “por enquanto”.

Pode-se dizer, por exemplo, que um empregado recebe certa quantia por hora de trabalho. Nesse caso, estamos fazendo referência ao intervalo de 60 minutos. Isso é muito diferente de dizer, por exemplo, que, por ora, nada foi definido.

Veja alguns usos da palavra “ora”:

1.      Os alunos que ora estão aqui devem preencher o formulário.

Nessa construção, “ora” é advérbio e significa “agora, neste momento”.

2.      Ora é gentil, ora é rude. Seu comportamento varia muito.

No período acima, “ora” tem valor de conjunção. Trata-se do par correlativo ora... ora, que indica alternância.

Como interjeição, pode aparecer em frases do tipo

3.      Ora, não me venha com essa!

Abaixo, a correção do fragmento que encabeça este texto:

 

A Ford não irá renovar o EcoSport à toa. Em alta, o mercado de jipinhos urbanos ganhou novos concorrentes em pouco tempo.

Por ora, os principais rivais que a próxima geração do Ford encontrará pela frente são Citroën Aircross e Renault Duster, que marcaram a estreia das montadoras francesas nessa briga.

 

 

 

26/12/2011

Cuidado com os “outros”...

 

 

É preciso estar atento ao uso do pronome indefinido “outro”. Ele pode aparecer com vários sentidos. É empregado, por exemplo, para fazer referência a algo que esteja fora do âmbito do falante e do ouvinte, contrapondo-se a algo ou a alguém conhecido ou definido (“Em outros tempos, isso não teria acontecido”, “Em outro lugar, isso poderia ser tolerado, mas aqui as regras são rígidas”).

Note-se que, nesses casos, o pronome “outro (s)” acompanha um substantivo. Quando mencionamos “outros tempos”, fica implícita a oposição ao tempo atual; quando tratamos de “outro lugar”, está subentendida a oposição ao lugar em que estamos.

Quando não se refere a uma realidade externa ao texto (como nos casos anteriores), o  pronome retoma um termo anterior. Podemos, por exemplo, dizer: “Ganhou um presente ontem e quer outro hoje”. Nessa construção, “outro” (agora com valor substantivo) retoma o termo anterior (“presente”).

Veja, agora, o seguinte fragmento:

 

Ao lado de colegas da Europa e de outros países da América do Sul, os deputados Chico Alencar (PSOL-RJ) e Marina Sant'Anna (PT-GO) participaram de recente missão de paz na Faixa de Gaza.

 

O  redator fez uso do pronome “outros” naturalmente para aludir implicitamente ao Brasil (outros países da América do Sul, que não o Brasil). Ocorre, porém, que a formulação geral da frase leva a um sentido não pretendido.  Observe-se que o termo “Europa” tecnicamente impede o uso do pronome “outros”, sob pena de estarmos dizendo que a Europa é um país (!) e, ainda por cima, da América do Sul. Isso acontece porque o pronome “outro” retoma o termo anterior (no caso, “Europa”).

Abaixo, uma sugestão para reelaborar o fragmento:

 

 

Ao lado de colegas da Europa e de vários países da América do Sul, os deputados Chico Alencar (PSOL-RJ) e Marina Sant'Anna (PT-GO) participaram de recente missão de paz na Faixa de Gaza.

16/12/2011

Vírgula antes do “e”

(1) “Anvisa não foi notificada, e diz que vai recorrer”

 

(2) “O governador Geraldo Alckmin tem uma enorme preocupação com a questão da segurança, e saberá tomar a decisão mais equilibrada.”

 

(3) “A SPR, em nota, diz que ‘o contrato com o Corinthians foi celebrado em junho de 2008’, e que na época ‘não teve qualquer concorrência, pois o sistema foi criado pela SPR e pelo Corinthians’.”

 

 

De modo geral, não se usa vírgula antes das conjunções aditivas (“e”, “nem”). A conjunção “e”, além de estabelecer relação de adição entre termos de uma oração ou entre orações, serve para finalizar uma enumeração. Em qualquer uma dessas situações, não cabe o uso da vírgula antes dela.

Nos três fragmentos acima, como se pode perceber, a vírgula foi incorretamente empregada antes do “e”.  Nos exemplos (1) e (2), a vírgula assinalou – indevidamente – a separação de orações.

Note-se que seria cabível e, em alguns casos, recomendável o emprego da vírgula para separar orações aditivas (encabeçadas pelo “e”) de sujeitos diferentes. Isso quer dizer que, sendo os sujeitos diferentes, é cabível o emprego da vírgula antes do “e”. Cabível, mas nem sempre obrigatório. Veja o seguinte caso:

 

Ela cantava suavemente e o gato dormia no sofá. (sujeitos diferentes sem necessidade de vírgula)

 

Se, no entanto, a construção puder conduzir a uma leitura ambígua, a vírgula será necessária. Veja a estrutura abaixo:

 

Ela trazia as compras e o marido segurava o cachorro.

 

Num caso como esse, emprega-se a vírgula, para deixar claro que  “o marido” é o sujeito de uma segunda oração, não a segunda parte do objeto direto. Assim:

 

Ela trazia as compras, e o marido segurava o cachorro.

 

Nos casos (1) e (2), a conjunção “e” une orações de sujeito idêntico; não há, portanto, justificativa para o uso da vírgula. No período (3), a conjunção “e” une duas partes de um objeto direto (A SPR diz que... e que... ), outra situação em que não cabe a vírgula.

Veja abaixo os fragmentos corrigidos:

 

 

(1) Anvisa não foi notificada e diz que vai recorrer

 

(2) O governador Geraldo Alckmin tem uma enorme preocupação com a questão da segurança e saberá tomar a decisão mais equilibrada.

 

(3) A SPR, em nota, diz que “o contrato com o Corinthians foi celebrado em junho de 2008” e que na época “não teve qualquer concorrência, pois o sistema foi criado pela SPR e pelo Corinthians”.

 

 

02/12/2011

Há e havia

“A tentativa de reaproximação acontece após a dissolução, em março, da junta militar que governava o país há cinco décadas e a passagem de poder para o presidente Thein Sein (um general que fazia parte da junta).”

É muito frequente a confusão entre as expressões “há X anos” e “havia X anos”. Ambas indicam tempo passado, mas, ao empregar a forma “há”, prevalece o aspecto pontual (algo que ocorreu X anos atrás) e, ao empregar a forma “havia”, prevalece o aspecto durativo (algo que vinha ocorrendo durante X anos, mas deixou de ocorrer).

Normalmente, a forma “havia” acompanha verbos no pretérito imperfeito, enquanto a forma “há” acompanha verbos no pretérito perfeito. Assim é que dizemos que algo ocorreu há cinco anos, mas que ocorria (ou vinha ocorrendo) havia cinco anos.

No fragmento em questão, a junta militar passou cinco décadas no governo do país, o que é diferente de ter governado cinco décadas atrás. O tempo verbal, portanto, traz uma informação relevante. Veja, abaixo, a correção:

A tentativa de reaproximação acontece após a dissolução, em março, da junta militar que governava o país havia cinco décadas e a passagem de poder para o presidente Thein Sein (um general que fazia parte da junta).

 

29/11/2011

Condenados a 18 anos de prisão

“Adalberto Lucena, segurança de Renné, contou que a vítima chegou a avisá-lo que sabia da intenção dos ex-funcionários – condenados há 18 anos de prisão por serem os executores do crime – de matá-lo.”

Das duas impropriedades verificadas no fragmento acima, a segunda é, com certeza, a mais gritante. Alguém é condenado “a” algum tipo de pena: condenado à morte, condenado à prisão perpétua, condenado, quem sabe, a passar o resto de seus dias fazendo algo de que não gosta.

Do ponto de vista da regência, o que importa é que alguém é condenado “a” alguma coisa.

É fato que os funcionários poderiam ter sido condenados à prisão há 18 anos, o que seria outra história. “Há 18 anos” quer dizer “18 anos atrás” ou “18 anos antes”. No trecho em questão, houve flagrante confusão entre as duas construções (“condenado à prisão” e “condenado há 18 anos”). Claro está que a condenação não ocorreu 18 anos atrás, dado que o crime data de 2007. Os 18 anos representam o tempo de prisão a que foram condenados os criminosos. O correto, portanto, seria “condenados a 18 anos de prisão”.

O outro problema do texto está na regência do verbo “avisar”, que admite dois complementos, o direto e o indireto. O objeto direto é representado pelo pronome oblíquo “o”, que assume a forma “-lo”; o objeto indireto, por sua vez, será a oração encabeçada pela conjunção subordinativa integrante “que”. Sendo tal oração um objeto indireto, caberá antes do “que” a preposição regida pelo verbo. Avisamos alguém “de” alguma coisa, portanto teríamos “avisá-lo de que sabia...”.

Veja, abaixo, o período reformulado:

Adalberto Lucena, segurança de Renné, contou que a vítima chegou a avisá-lo de que sabia da intenção dos ex-funcionários – condenados a 18 anos de prisão por serem os executores do crime – de matá-lo.

 

 

04/10/2011

Análise sintática ajuda a organizar período

 

Após confirmar que a vítima tinha um relógio caro no pulso, a polícia diz que Mazzini passava a informação por um rádio a dois comparsas que, em uma moto, iam atrás da vítima e a roubavam.

 

 

O defeito de construção verificado no fragmento acima é relativamente comum. Atribui-se, sem o desejar, uma ação a quem não a praticou.

Do modo como está redigido, o texto leva à interpretação de que quem confirmou que a vítima tinha um relógio caro no pulso foi a polícia. Ocorre, porém, que a intenção do redator era dizer que Mazzini (o “ladrão da luneta”) confirmava que a vítima tinha um relógio caro no pulso e, depois, avisava os comparsas.

Do ponto de vista da estrutura do texto, o que ocorre é o seguinte: a oração que inicia o parágrafo é subordinada à segunda (“após confirmar...” é oração sintaticamente subordinada à oração dita principal, que é “a polícia diz...”). Como a oração subordinada não tem o sujeito explícito, entende-se naturalmente ser esse sujeito idêntico ao da oração principal. Veja outro exemplo:

 

Após confirmar o fato, o delegado prendeu os ladrões.

 

Nesse caso, “o delegado” é o sujeito de “prender” e de “confirmar”. Se a ideia fosse dizer que quem confirmou o fato foi outro sujeito, este deveria ser explicitado na oração subordinada. Assim:

 

Após o investigador confirmar o fato, o delegado prendeu os ladrões.

 

No fragmento em questão, o sujeito de “confirmar” (verbo da oração subordinada adverbial temporal) nem mesmo está na oração principal (que é “a polícia diz”). Vai aparecer na oração subordinada substantiva objetiva direta (em outra oração subordinada, que não tem relação direta com a subordinada adverbial temporal).

Para organizar esse período, seria necessário fazer uma inversão sintática, de modo que o objeto direto do verbo “dizer” (aquilo que a polícia diz) fosse “que Mazzini passava a informação aos comparsas após confirmar que a vítima tinha um relógio caro no pulso”.

Veja abaixo como fica o período:

 

A polícia diz que, após confirmar que a vítima tinha um relógio caro no pulso,  Mazzini passava a informação por um rádio a dois comparsas, que, em uma moto, iam atrás da vítima e a roubavam.

 

 

 

 

 

 

03/10/2011

Havia ou haviam?

 

Sempre é bom lembrar que o verbo “haver”, quando empregado no sentido de “existir” ou de “ocorrer”, é impessoal.

Isso quer dizer que deve ser conjugado apenas na terceira pessoa do singular, qualquer que seja o tempo (há, houve, havia, houvera, houver, houvesse etc.).

O mesmo vale para os auxiliares do verbo “haver” em construções do tipo “deve haver”, “pode haver”, “vai haver”, “há de haver” etc. 

No fragmento abaixo, o redator tratou como sujeito aquilo que é objeto direto:

 

No seu bolso, os policiais da Deatur encontraram outros dois relógios de luxo, da marca Rolex. Na casa dele, haviam outros 14 relógios.

 

 

Como nessa acepção não admite sujeito, o verbo “haver” deve permanecer no singular:

 

No seu bolso, os policiais da Deatur encontraram outros dois relógios de luxo, da marca Rolex. Na casa dele, havia outros 14 relógios.

 

 

O verbo “haver” pode admitir o sujeito, mas isso geralmente ocorre em situações formais (“Nunca houveram o que perderam”, “Não houvemos o resultado pretendido” etc.). Entre as menos formais (e mais frequentes) estão aquelas em que é empregado como auxiliar: “Eu hei de vencer”, “Eles haverão de entender isso em algum dia”, “Eles haviam chegado antes do anoitecer” etc.

 

 

30/09/2011

Ambiguidade é defeito de construção

Nicole Richie colocou silicone no cirurgião de Kate Hudson

O título acima é um daqueles que merecem lugar de honra na galeria das célebres frases ambíguas. Ao pé da letra, como se diz por aí, o cirurgião de Kate Hudson foi quem recebeu o implante de silicone, colocado por Nicole Richie.

É claro que o leitor dispensa a interpretação absurda, mas não deixa de percebê-la. Sua atenção é, naturalmente, desviada do foco da notícia.

Cabe perguntar o que, linguisticamente, leva a essa duplicidade de sentidos na frase. Na linguagem popular, quando dizemos que “fulana colocou silicone”, queremos dizer que ela recebeu implantes de silicone no corpo – quem os colocou não foi ela, mas, por óbvio, o cirurgião. Ora, se fosse apenas “Nicole Richie colocou silicone”, a frase possivelmente não despertaria a atenção, mas a segunda parte (“no cirurgião de Kate Hudson”) é que tira da rota o sentido pretendido.

O que se pretendia dizer era o seguinte:

 

Cirurgião de Kate Hudson colocou silicone em Nicole Richie

Pode, entretanto, o redator entender que a ênfase da notícia sofreria alteração com essa mudança, já que passaria a recair sobre o cirurgião, não sobre Nicole Richie. Nesse caso, resta dar tratos à bola para encontrar a formulação ideal – sem ferir o princípio da clareza!

Seguem, abaixo, mais sugestões:

 

Nicole Richie teve silicone implantado por cirurgião de Kate Hudson

Silicone de Nicole Richie foi posto por cirurgião de Kate Hudson

 

29/09/2011

“Ser abusado” – evite a voz passiva

 

A garota, ainda segundo a polícia, contou que foi abusada pelo pai dos 8 aos 16 anos.

 

 

O verbo “abusar” é transitivo indireto, ou seja, seu complemento é introduzido por uma preposição. Daí serem corretas construções como “O pai abusou sexualmente da filha” ou “O redator abusou do emprego do gerúndio”.

É importante lembrar que os transitivos indiretos não admitem a voz passiva (é por isso que não dizemos que “alguém é gostado”, por exemplo). Conclui-se, assim, que, na voz passiva, não se emprega o verbo “abusar”.

Em algumas regiões do Brasil, dizer que alguém “é abusado” significa dizer que a pessoa é atrevida, confiada, intrometida. Nesse caso, a forma de particípio do verbo “abusar” atua como adjetivo. Não se trata, nesse caso, de voz passiva.

Para evitar o defeito de construção que se vê no trecho em epígrafe, o ideal é usar um verbo transitivo direto de significado semelhante ou empregar o verbo “abusar” na voz ativa. Abaixo uma sugestão de correção:

 

 

A garota, ainda segundo a polícia, contou que foi molestada sexualmente pelo pai dos 8 aos 16 anos.

26/09/2011

Erro de regência em título

Massa 'agradece' Hamilton com tapa após acidente

 

Com um forte tapa no ombro e a frase "Bom trabalho, hein, bom trabalho", Felipe Massa interrompeu uma entrevista que Lewis Hamilton concedia após a corrida de ontem para "agradecer" ao piloto inglês, que respondeu: "Não encosta em mim".

 

 

O fato de o espaço do título jornalístico ser restrito não deve ser desculpa para o descuido no uso da norma culta. Em posição de destaque, o título é a chamada para a notícia, é a primeira frase que o leitor vê.

O caso acima é curioso: a regência do verbo “agradecer” está incorreta no título, mas correta no lide. Tanto se pode pensar que a hesitação foi fruto da dúvida como se pode imaginar que a preposição foi dispensada no título por falta de espaço.

As pessoas agradecem alguma coisa (um presente, um elogio, um convite) a alguém (pessoa, instituição etc.). Essa é a regência original do verbo “agradecer”, que, entretanto, já admite a variação “agradecer a alguém por alguma coisa”.

Temos, portanto, duas construções corretas: “Fulano agradeceu o convite a beltrano”, “Fulano agradeceu a beltrano pelo convite”. Em nenhuma hipótese o complemento de pessoa prescinde de preposição.

Assim, Massa pode agradecer a Hamilton por alguma coisa ou agradecer alguma coisa a Hamilton. De qualquer forma, a preposição “a” deve anteceder o nome do destinatário da ação (a pessoa a quem se agradece algo).

 

Assim:

 

Massa 'agradece' a Hamilton com tapa após acidente

 

 

 

20/09/2011

Ambiguidade: médicos não devem atender

 

120 mil médicos não devem atender planos amanhã

 

O título jornalístico acima traz uma construção sintática ambígua. Quem ler o texto que se segue a ele saberá que existe a possibilidade de 120 mil médicos suspenderem o atendimento a clientes de planos de saúde amanhã.

 

O verbo “dever” como auxiliar modal indica as ideias de obrigatoriedade, necessidade ou advertência (“Crianças não devem dormir tarde”, “Atletas não devem beber antes das competições”, “Você não deve tomar essa atitude agora”) e de probabilidade (“Isso não deve acabar bem”, “Não deve chover hoje”).

 

A intenção do redator é dar realce à ideia de probabilidade, mas a frase pode ser lida com outro sentido também, como se fosse um conselho. Isso configura a ambiguidade, que é um defeito de construção sintática.

 

Observe-se ainda que a negação deveria incidir sobre a ação de atender, não sobre a probabilidade, mas é fato que uma construção como “médicos devem não atender” poderia causar estranheza. Há várias soluções possíveis, mas, dentro do espaço disponível para o título, as opções se restringem. Uma ideia seria substituir o auxiliar modal “dever” por “poder” e deslocar a negativa. Assim:

 

120 mil médicos podem não atender planos amanhã

15/09/2011

Concordância e precisão

Fazer um título jornalístico nem sempre é uma tarefa fácil: é preciso chamar a atenção do leitor, usar um espaço previamente limitado e informar com precisão.

Às vezes, o resultado não é dos melhores. Vejamos este:

Advogado confirma ser Scarlett Johansson em fotos nuas e proíbe sites de usá-las, diz site

“Nu” é um adjetivo, portanto flexiona-se para concordar com o termo a que se refere. No título acima, optou-se por atribuir a qualidade às fotos. Mas são as fotos que estão nuas?

 

As fotos, na verdade, reproduzem a imagem da atriz nua. O adjetivo refere-se à atriz, não às fotos, portanto é com ela que deve concordar.

 

É fato que textos que envolvem o termo “foto” tendem a gerar algum grau de confusão. É clássico o exemplo “Tenho uma foto sua”, que tanto pode indicar que a foto pertence ao interlocutor como indicar que o interlocutor é o fotografado. Esse tipo de problema em geral se resolve no contexto, que pode validar uma ou outra interpretação. Se persistir a ambiguidade, será preciso reformular a construção. Escrever, às vezes, é reescrever.

 

Abaixo uma sugestão de reformulação do título:

 

Advogado confirma ser Scarlett Johansson nua em fotos e proíbe sites de usá-las, diz site

 

31/08/2011

Desmistificar e desmitificar

 Novo livro de Leandro Narloch e Duda Teixeira desconstrói mitos da América Latina e combate visão 'esquerdista' sobre os fatos

 

A dupla tenta desmistificar os principais heróis da esquerda latino-americana, como o revolucionário mexicano Pancho Villa, o presidente socialista chileno Salvador Allende e o guerrilheiro argentino Che Guevara.

 

 

Desmistificar e desmitificar: as palavras são formalmente parecidas, mas têm significados diferentes.

“Desmistificar” significa “destituir o caráter místico ou misterioso de algo”. Citado como exemplo desse uso no dicionário “Aulete”, temos o seguinte trecho, extraído de obra de João Ubaldo Ribeiro: "...no que desmistifico mais um pouco a suposta possessão dos escritores pelas musas” (in: “Diário do Farol”).

Como “mistificar” também significa “enganar”, “desmistificar” pode assumir o sentido de “desmascarar” (“desmistificar um charlatão”, por exemplo).

“Desmitificar”, por sua vez, vem de “mito” e significa “destituir algo ou alguém de seu caráter de mito, de seus aspectos lendários”. Nesse sentido, diz-se que alguém “desmitificou um personagem histórico”, por exemplo.

O verbo admite ainda, como extensão desse sentido, o significado de “banalizar” (“desmitificar a figura do educador” é o exemplo proposto no dicionário “Houaiss”).

 No fragmento em questão, fica claro que a ideia seria “desmitificar”, não “desmistificar”. No texto introdutório, o redator explica que os autores do livro desconstroem mitos da América Latina. Desconstruir mitos é desmitificar.

Veja, abaixo, o fragmento corrigido:

 

 

Novo livro de Leandro Narloch e Duda Teixeira desconstrói mitos da América Latina e combate visão 'esquerdista' sobre os fatos

 

A dupla tenta desmitificar os principais heróis da esquerda latino-americana, como o revolucionário mexicano Pancho Villa, o presidente socialista chileno Salvador Allende e o guerrilheiro argentino Che Guevara.

 

24/08/2011

Regência de antônimos: algumas pistas

 

Tal decisão foi motivada por recurso feito pelo próprio Senado, que discordava com o corte. 


Conhecer a regência dos verbos e nomes leva tempo e requer atenção. Muita gente acha que só mesmo a memorização resolve o problema porque o sentido das preposições vai-se esvaziando com o tempo e fica difícil fazer algum tipo de associação de natureza semântica.


Embora pelo menos em parte isso seja verdadeiro, é possível evitar algumas incorreções observando certas regularidades. O fragmento em epígrafe apresenta o verbo “discordar”, antônimo de “concordar”. Dizemos que uma pessoa concorda com outra, mas também dizemos que uma pessoa discorda de outra.


Convém observar que “concordar” e “discordar”  têm significados opostos. “Concordar”, na origem, é aproximar os corações; “discordar” é afastá-los, separá-los. Normalmente os verbos iniciados por “com-/con-” regem complemento introduzido pela preposição “com”, numa espécie de confirmação da relação semântica indicada pelo prefixo. Normalmente, mas não sempre!


Em contrapartida, temos “discordar de”, em que o prefixo “dis-” indica afastamento. Essa ideia se reflete na preposição “de”, que introduz o complemento do verbo. O par “com/de” indica aproximação/separação, como se vê  em “casar (-se) com alguém”  e “divorciar-se ou separar-se de alguém”. Com o verbo “discutir”, por exemplo, continuamos usando a preposição “com”, que sugere ser a ação empreendida reciprocamente pelas duas partes.

 

Ainda que não seja possível estabelecer uma regra “infalível”, é comum que verbos de sentido oposto rejam preposições diferentes. Assim: “habituar-se a alguma coisa”, mas “desabituar-se de alguma coisa”; “colar em”, mas “descolar de”; “alojar (-se) em algum lugar”, mas “desalojar (-se) de algum lugar”; “pôr em”, mas “tirar de”; “amarrar a algum lugar ou em algum lugar”, mas “desamarrar de”; “animar alguém a fazer algo”, mas “desanimá-lo de tentar novamente”; “aparecer em algum lugar”, mas “desaparecer de lá”; “prender a algo ou em algo”, mas “desprender de algo”; “atrair a ou para”, mas “distrair de”.


Verbos como “agradar” e “desagradar” ou “obedecer” e “desobedecer”, por exemplo, regem, todos eles, complemento iniciado pela preposição “a”: agradar ou desagradar a alguém, obedecer ou desobedecer a algo.  

Em suma, há pistas que podemos seguir nos momentos de dúvida. É claro que ter à mão um bom dicionário de regência é sempre a melhor opção.

Veja, abaixo, a frase corrigida:


Tal decisão foi motivada por recurso feito pelo próprio Senado, que discordava do corte. 

 

UOL Blog