Neste blog são publicadas as dicas de português preparadas sob medida para a Redação do UOL

24/07/2012

Um pouco de linguagem jurídica

A linguagem jurídica é sempre um desafio para os redatores. Por um lado, pode ser muito técnica e, portanto, hermética para os leitores, requerendo uma espécie de “tradução”; por outro, não pode ser ignorada, pois a troca de um termo por outro pode ser um erro do ponto de vista do Direito.

Uma boa ideia é consultar sempre o blog Para entender direito, do Gustavo Romano, nosso consultor jurídico. Clique em dúvidas frequentes e encontrará um buscador muito prático. O endereço eletrônico é este: http://direito.folha.uol.com.br/ .

 

Seguem abaixo algumas dicas do Gustavo sobre os termos de caráter genérico que podem ser empregados sem prejuízo do sentido jurídico estrito.

 

A palavra norma  pode ser empregada para fazer referência a qualquer regra com força coercitiva, como leis ou PECs (propostas de emenda constitucional), por exemplo. Se a intenção for aludir a juízes, a ministros ou a desembargadores, use genericamente magistrado. Evite confundir juízes com desembargadores. Quem trabalha em um TJ (Tribunal de Justiça) é desembargador (exceto se for um juiz convocado), portanto não chame “desembargador” de “juiz” nem  “juiz” de “desembargador”.

 

Quem trabalha nos Tribunais Regionais Federais não deve ser chamado de desembargador federal (esse cargo não existe no Brasil). Desembargador, no Brasil, só existe nos TJs.

 

Juiz não é termo genérico para se referir ao julgador. É o nome de um cargo específico. O termo genérico para se referir a qualquer membro do Judiciário que julga é magistrado.

 

Para generalizar impostos, taxas, contribuições sociais, contribuições de melhorias e empréstimos compulsórios, use tributo. Esse é um termo que serve para todos esses casos. Suspeito é um termo apropriado para fazer referência ao investigado, ao indiciado, ao acusado ou mesmo ao condenado em primeira instância e assim por diante. Vale para qualquer pessoa que ainda não teve sentença transitada em julgado (ou seja, quando já não cabe nenhum recurso).

 

Delito é um termo apropriado para aludir tanto a um crime quanto a uma contravenção penal. Membro do Ministério Público é a forma genérica apropriada para um promotor, para um procurador de Justiça, para um procurador da República, para um procurador regional da República, para um subprocurador-geral da República e para os procuradores da Justiça do Trabalho, da Justiça Militar ou da Justiça Eleitoral.  

 

 

 

 

11/07/2012

Ascendência e descendência

 

“A maioria dos comerciantes que trabalhava na região era de descendência japonesa. E em seu dia a dia eles vendiam batatas.”

 

 

Ascendência e descendência são duas palavras que confundem muita gente. Vejamos por quê. Se você é filho de japoneses, por exemplo, você é descendente de japoneses ou, em outras palavras, você tem ascendência japonesa.

 

Descendente é aquele que provém de determinada família ou origem; ascendente é a pessoa de quem se descende. Assim, o filho é descendente do pai, e o pai, ascendente do filho.

 

O termo “ascendente” é conhecido por seu uso em astrologia (diz-se do astro do zodíaco que se eleva no horizonte oriental no momento do nascimento de alguém). Veja que o ascendente está na origem.

 

Chamamos de ascendência a linha das gerações anteriores de um indivíduo ou de uma família. Dizemos, portanto, que alguém tem ascendência indígena (origem indígena), ascendência lusitana (origem lusitana) e assim por diante. 

 

Nesse fragmento, além do uso equivocado do termo “descendência”, observamos um deslize – aliás, muito comum – de concordância verbal. A forma verbal “trabalhava” deveria estar em acordo com o antecedente do pronome relativo “que”, ou seja, com a palavra “comerciantes” (comerciantes que trabalhavam).

 

Para corrigir o texto, poderíamos seguir dois caminhos. Observe com atenção:

 

A maioria dos comerciantes que trabalhavam na região era de ascendência japonesa. E em seu dia a dia eles vendiam batatas.

 

A maioria dos comerciantes que trabalhavam na região tinha ascendência japonesa. E em seu dia a dia eles vendiam batatas.

 

Nas versões acima, mantivemos a organização da ideia (a maioria era de ascendência japonesa/ a maioria tinha ascendência japonesa) e fizemos as correções gramaticais.

 

A maioria dos comerciantes que trabalhavam na região eram descendentes de japoneses. E em seu dia a dia eles vendiam batatas.

 

Nesta última, optamos pelo uso do termo “descendentes” como substantivo e adaptamos a forma do verbo “ser”, que passa a concordar com o predicativo (o termo que está no plural).

 

Sempre é bom lembrar que o verbo “ser” tem regras especiais de concordância. Como liga um nome a outro (sendo um o sujeito e o outro o predicativo), nem sempre concorda com o sujeito da oração. Se o sujeito estiver no singular (“a maioria”) e o predicativo estiver no plural (“descendentes”), o verbo “ser” irá para o plural. 

10/07/2012

Mas e mais

A confusão entre essas duas palavras tem sido frequente em nossas páginas. Vale a pena relembrar o correto uso de cada uma delas.

 

“Mas” é uma das conjunções adversativas, permutável por “porém”, “contudo”, “todavia”, “entretanto”, “no entanto”: “A justiça tarda, MAS não falha”, como nos lembra um velho ditado popular. Essa conjunção introduz uma oração que tem sentido oposto ao da anterior ou que indica uma ressalva ao que foi dito antes.

 

“Mais” é um pronome indefinido ou um advérbio de intensidade – é o contexto que deixa clara a sua classificação morfológica. De toda forma, é sempre um antônimo de “menos”.

 

“MAIS respeito, menos confiança!”, diziam os antigos. Nessa frase, “mais” é um pronome indefinido (incidindo sobre um substantivo, indica quantidade superior incerta).

 

Quando incide sobre adjetivos (“Era o irmão mais velho”), sobre advérbios (“Ela fala mais pausadamente que ele”) ou sobre verbos (“Ele gasta mais do que ela”), “mais” é um advérbio de intensidade.

 

Veja o fragmento publicado no UOL:

 

“Tudo o que saiu na imprensa era verdade. Falei com o Leonardo. Ele me ligou algumas vezes para falar do projeto que estava sendo feito no PSG e para dizer que gostariam de contar comigo”, contou ele, sobre sua negociação com o time francês. “Mais eu conversei com o Ibrahimovic, com o Robinho e com o Pato. Eles disseram para ficar. Um diretor do Milan também me ligou e disse para mim que eu ficaria.”

 

Na verdade, a oração encabeçada pelo que deveria ser a conjunção “mas” não está claramente em oposição à anterior, como se poderia esperar, dado o uso dessa conjunção. Ocorre que, no discurso falado, isso é muito frequente. Um texto escrito deve passar pelo processo de edição a fim de tornar-se mais limpo e claro para o leitor. No texto em questão, essa conjunção era desnecessária.

 

De todo modo, o erro que saiu publicado é bem mais grave que o de falta de edição. O advérbio ou pronome “mais” não caberia de jeito nenhum no contexto. Veja a correção:

 

Tudo o que saiu na imprensa era verdade. Falei com o Leonardo. Ele me ligou algumas vezes para falar do projeto que estava sendo feito no PSG e para dizer que gostariam de contar comigo”, contou ele, sobre sua negociação com o time francês. “Mas eu conversei com o Ibrahimovic, com o Robinho e com o Pato. Eles disseram para ficar. Um diretor do Milan também me ligou e disse para mim que eu ficaria.

 

Lembre-se:

 

MAS = porém, contudo, todavia, entretanto, no entanto

 

MAIS – contrário de MENOS

03/04/2012

Acento ou assento?

Veja só a confusão que ocorreu outro dia num texto sobre automóveis:

“De acordo com o médico, veículos modernos são projetados para evitar dores no corpo do condutor. Os modelos mais sofisticados trazem acentos com abas laterais (sustentam o corpo e protegem a região lombar), volante com ajuste de altura e profundidade e fácil acesso aos pedais.”

Já percebeu qual foi o problema? “Acento” no lugar de “assento”! Pois é, “acento” é bem diferente de “assento”. Essas palavras são chamadas, na gramática tradicional, de homônimos. Isso porque elas têm exatamente a mesma pronúncia. A semelhança, no entanto, para por aí. Cada uma tem uma grafia e cada uma tem seu significado. Não há corretor ortográfico que nos ajude a corrigir esse tipo de erro. O único jeito mesmo é saber a hora de usar cada um dos homônimos.

Assento serve para sentar-se (veja a semelhança gráfica entre as palavras, que são da mesma família). O verbo “assentar” também pertence ao grupo de cognatos. Aliás, esse verbo tem dois particípios (assentado e assente). Foi a segunda forma que a angolana vencedora do concurso Miss Universo 2012 usou em sua declaração: “”De certa forma, a minha vida acaba de mudar. Vou precisar de Deus e de ter os pés bem assentes na Terra”.

Assento, com “ss”, é o banco do carro, é a poltrona do cinema, é a cadeira do brinquedo no Hopi Hari, é um lugar (o Brasil pleiteia um assento na ONU) e até mesmo… as nádegas!

Acento, com “c”, é a sílaba forte de uma palavra, o sinal gráfico que a demarca ou mesmo o sotaque.
Como vemos, “acento” e “assento” são coisas bem diferentes!…

30/01/2012

Imigrante e emigrante

 

O imigrante brasileiro está mandando cada vez menos dinheiro para casa, diante da crise no Japão, nos EUA e na Europa e do movimento de retorno dos expatriados.

No ano passado, as remessas de brasileiros no exterior chegaram ao nível mais baixo desde 2002 -US$ 1,97 bilhão, diz o Banco Central. Na comparação com 2008, início da crise, a queda foi de 32%.

 

 

Os termos “imigrante” e “emigrante” têm significados opostos: imigrante é aquele que entra em um país, emigrante é aquele que sai de um país. Teoricamente, a distinção é muito simples.

O problema aparece, no entanto, no momento de redigir. Para empregar o termo adequado, é necessário levar em consideração o ponto de referência.

Do ponto de vista de quem está no Brasil, imigrante é o estrangeiro que vem estabelecer residência em nosso país. Já o brasileiro que sai para fixar-se em outro país, do nosso ponto de vista, é um emigrante.

No trecho em questão, é o brasileiro que está vivendo fora do país que está mandando menos dinheiro para casa, isto é, para o Brasil (este é o ponto de referência).

Num país que tenha recebido um brasileiro, este será um imigrante. O imigrante é estrangeiro no lugar onde vive. Só faz sentido falar em imigrante brasileiro num país que não seja o Brasil (algo como “Os EUA têm em sua população um grande número de imigrantes brasileiros”).

Veja abaixo:

 

 

O emigrante brasileiro está mandando cada vez menos dinheiro para casa, diante da crise no Japão, nos EUA e na Europa e do movimento de retorno dos expatriados.

No ano passado, as remessas de brasileiros que vivem no exterior chegaram ao nível mais baixo desde 2002 -US$ 1,97 bilhão, segundo o Banco Central. Na comparação com 2008, início da crise, a queda foi de 32%.

 

13/01/2012

Ambiguidade: evite esse defeito de construção sintática

Macarrão levou Eliza Samudio para ser morta por amar Bruno, diz advogado do goleiro

O título jornalístico acima bem ilustra um defeito de construção sintática conhecido como “ambiguidade”. Dada a sua estrutura, o texto permite duas leituras.

Vamos entender por que isso ocorre: observe que a oração infinitiva “por amar Bruno”, de caráter adverbial (exprime a causa de algo), pode modificar qualquer uma das duas formas verbais mencionadas anteriormente (“levou” ou “ser morta”).

Em outras palavras, ou Macarrão levou Eliza Samudio ao local em que seria morta porque ele amava Bruno, ou Eliza Samudio foi morta por amar Bruno. Na prática, fica a pergunta: quem amava Bruno?

Independentemente de quem amasse mais o goleiro Bruno, o fato é que a leitura da notícia nos permite compreender que o rapaz que atende pelo apelido de “Macarrão” era quem amava o goleiro e, em razão desse sentimento, na versão do referido advogado, levou Eliza ao local onde seria morta.

Para que o leitor compreendesse o inusitado argumento do advogado já na primeira leitura, bastaria ao redator mudar a posição da oração infinitiva. Posta no início do período, imediatamente antes do sujeito representado por “Macarrão”, a oração só poderia referir-se à ação praticada por ele. Assim:

 

Por amar Bruno, Macarrão levou Eliza Samudio para ser morta, segundo o advogado do goleiro

 

 

09/01/2012

“Por hora” é diferente de “por ora”

 “A Ford não irá renovar o EcoSport à toa. Em alta, o mercado de jipinhos urbanos ganhou novos concorrentes em pouco tempo.

Por hora, os principais rivais que a próxima geração do Ford encontrará pela frente são Citroën Aircross e Renault Duster, que marcaram a estreia das montadoras francesas nessa briga.”

“Por hora” é diferente de “por ora”. “Hora”, com h, é um intervalo de 60 minutos, enquanto “ora” equivale a “agora” ou “neste momento”. É a forma “ora” que integra a expressão “por ora”, equivalente a “por enquanto”.

Pode-se dizer, por exemplo, que um empregado recebe certa quantia por hora de trabalho. Nesse caso, estamos fazendo referência ao intervalo de 60 minutos. Isso é muito diferente de dizer, por exemplo, que, por ora, nada foi definido.

Veja alguns usos da palavra “ora”:

1.      Os alunos que ora estão aqui devem preencher o formulário.

Nessa construção, “ora” é advérbio e significa “agora, neste momento”.

2.      Ora é gentil, ora é rude. Seu comportamento varia muito.

No período acima, “ora” tem valor de conjunção. Trata-se do par correlativo ora... ora, que indica alternância.

Como interjeição, pode aparecer em frases do tipo

3.      Ora, não me venha com essa!

Abaixo, a correção do fragmento que encabeça este texto:

 

A Ford não irá renovar o EcoSport à toa. Em alta, o mercado de jipinhos urbanos ganhou novos concorrentes em pouco tempo.

Por ora, os principais rivais que a próxima geração do Ford encontrará pela frente são Citroën Aircross e Renault Duster, que marcaram a estreia das montadoras francesas nessa briga.

 

 

 

26/12/2011

Cuidado com os “outros”...

 

 

É preciso estar atento ao uso do pronome indefinido “outro”. Ele pode aparecer com vários sentidos. É empregado, por exemplo, para fazer referência a algo que esteja fora do âmbito do falante e do ouvinte, contrapondo-se a algo ou a alguém conhecido ou definido (“Em outros tempos, isso não teria acontecido”, “Em outro lugar, isso poderia ser tolerado, mas aqui as regras são rígidas”).

Note-se que, nesses casos, o pronome “outro (s)” acompanha um substantivo. Quando mencionamos “outros tempos”, fica implícita a oposição ao tempo atual; quando tratamos de “outro lugar”, está subentendida a oposição ao lugar em que estamos.

Quando não se refere a uma realidade externa ao texto (como nos casos anteriores), o  pronome retoma um termo anterior. Podemos, por exemplo, dizer: “Ganhou um presente ontem e quer outro hoje”. Nessa construção, “outro” (agora com valor substantivo) retoma o termo anterior (“presente”).

Veja, agora, o seguinte fragmento:

 

Ao lado de colegas da Europa e de outros países da América do Sul, os deputados Chico Alencar (PSOL-RJ) e Marina Sant'Anna (PT-GO) participaram de recente missão de paz na Faixa de Gaza.

 

O  redator fez uso do pronome “outros” naturalmente para aludir implicitamente ao Brasil (outros países da América do Sul, que não o Brasil). Ocorre, porém, que a formulação geral da frase leva a um sentido não pretendido.  Observe-se que o termo “Europa” tecnicamente impede o uso do pronome “outros”, sob pena de estarmos dizendo que a Europa é um país (!) e, ainda por cima, da América do Sul. Isso acontece porque o pronome “outro” retoma o termo anterior (no caso, “Europa”).

Abaixo, uma sugestão para reelaborar o fragmento:

 

 

Ao lado de colegas da Europa e de vários países da América do Sul, os deputados Chico Alencar (PSOL-RJ) e Marina Sant'Anna (PT-GO) participaram de recente missão de paz na Faixa de Gaza.

16/12/2011

Vírgula antes do “e”

(1) “Anvisa não foi notificada, e diz que vai recorrer”

 

(2) “O governador Geraldo Alckmin tem uma enorme preocupação com a questão da segurança, e saberá tomar a decisão mais equilibrada.”

 

(3) “A SPR, em nota, diz que ‘o contrato com o Corinthians foi celebrado em junho de 2008’, e que na época ‘não teve qualquer concorrência, pois o sistema foi criado pela SPR e pelo Corinthians’.”

 

 

De modo geral, não se usa vírgula antes das conjunções aditivas (“e”, “nem”). A conjunção “e”, além de estabelecer relação de adição entre termos de uma oração ou entre orações, serve para finalizar uma enumeração. Em qualquer uma dessas situações, não cabe o uso da vírgula antes dela.

Nos três fragmentos acima, como se pode perceber, a vírgula foi incorretamente empregada antes do “e”.  Nos exemplos (1) e (2), a vírgula assinalou – indevidamente – a separação de orações.

Note-se que seria cabível e, em alguns casos, recomendável o emprego da vírgula para separar orações aditivas (encabeçadas pelo “e”) de sujeitos diferentes. Isso quer dizer que, sendo os sujeitos diferentes, é cabível o emprego da vírgula antes do “e”. Cabível, mas nem sempre obrigatório. Veja o seguinte caso:

 

Ela cantava suavemente e o gato dormia no sofá. (sujeitos diferentes sem necessidade de vírgula)

 

Se, no entanto, a construção puder conduzir a uma leitura ambígua, a vírgula será necessária. Veja a estrutura abaixo:

 

Ela trazia as compras e o marido segurava o cachorro.

 

Num caso como esse, emprega-se a vírgula, para deixar claro que  “o marido” é o sujeito de uma segunda oração, não a segunda parte do objeto direto. Assim:

 

Ela trazia as compras, e o marido segurava o cachorro.

 

Nos casos (1) e (2), a conjunção “e” une orações de sujeito idêntico; não há, portanto, justificativa para o uso da vírgula. No período (3), a conjunção “e” une duas partes de um objeto direto (A SPR diz que... e que... ), outra situação em que não cabe a vírgula.

Veja abaixo os fragmentos corrigidos:

 

 

(1) Anvisa não foi notificada e diz que vai recorrer

 

(2) O governador Geraldo Alckmin tem uma enorme preocupação com a questão da segurança e saberá tomar a decisão mais equilibrada.

 

(3) A SPR, em nota, diz que “o contrato com o Corinthians foi celebrado em junho de 2008” e que na época “não teve qualquer concorrência, pois o sistema foi criado pela SPR e pelo Corinthians”.

 

 

02/12/2011

Há e havia

“A tentativa de reaproximação acontece após a dissolução, em março, da junta militar que governava o país há cinco décadas e a passagem de poder para o presidente Thein Sein (um general que fazia parte da junta).”

É muito frequente a confusão entre as expressões “há X anos” e “havia X anos”. Ambas indicam tempo passado, mas, ao empregar a forma “há”, prevalece o aspecto pontual (algo que ocorreu X anos atrás) e, ao empregar a forma “havia”, prevalece o aspecto durativo (algo que vinha ocorrendo durante X anos, mas deixou de ocorrer).

Normalmente, a forma “havia” acompanha verbos no pretérito imperfeito, enquanto a forma “há” acompanha verbos no pretérito perfeito. Assim é que dizemos que algo ocorreu há cinco anos, mas que ocorria (ou vinha ocorrendo) havia cinco anos.

No fragmento em questão, a junta militar passou cinco décadas no governo do país, o que é diferente de ter governado cinco décadas atrás. O tempo verbal, portanto, traz uma informação relevante. Veja, abaixo, a correção:

A tentativa de reaproximação acontece após a dissolução, em março, da junta militar que governava o país havia cinco décadas e a passagem de poder para o presidente Thein Sein (um general que fazia parte da junta).

 

29/11/2011

Condenados a 18 anos de prisão

“Adalberto Lucena, segurança de Renné, contou que a vítima chegou a avisá-lo que sabia da intenção dos ex-funcionários – condenados há 18 anos de prisão por serem os executores do crime – de matá-lo.”

Das duas impropriedades verificadas no fragmento acima, a segunda é, com certeza, a mais gritante. Alguém é condenado “a” algum tipo de pena: condenado à morte, condenado à prisão perpétua, condenado, quem sabe, a passar o resto de seus dias fazendo algo de que não gosta.

Do ponto de vista da regência, o que importa é que alguém é condenado “a” alguma coisa.

É fato que os funcionários poderiam ter sido condenados à prisão há 18 anos, o que seria outra história. “Há 18 anos” quer dizer “18 anos atrás” ou “18 anos antes”. No trecho em questão, houve flagrante confusão entre as duas construções (“condenado à prisão” e “condenado há 18 anos”). Claro está que a condenação não ocorreu 18 anos atrás, dado que o crime data de 2007. Os 18 anos representam o tempo de prisão a que foram condenados os criminosos. O correto, portanto, seria “condenados a 18 anos de prisão”.

O outro problema do texto está na regência do verbo “avisar”, que admite dois complementos, o direto e o indireto. O objeto direto é representado pelo pronome oblíquo “o”, que assume a forma “-lo”; o objeto indireto, por sua vez, será a oração encabeçada pela conjunção subordinativa integrante “que”. Sendo tal oração um objeto indireto, caberá antes do “que” a preposição regida pelo verbo. Avisamos alguém “de” alguma coisa, portanto teríamos “avisá-lo de que sabia...”.

Veja, abaixo, o período reformulado:

Adalberto Lucena, segurança de Renné, contou que a vítima chegou a avisá-lo de que sabia da intenção dos ex-funcionários – condenados a 18 anos de prisão por serem os executores do crime – de matá-lo.

 

 

04/10/2011

Análise sintática ajuda a organizar período

 

Após confirmar que a vítima tinha um relógio caro no pulso, a polícia diz que Mazzini passava a informação por um rádio a dois comparsas que, em uma moto, iam atrás da vítima e a roubavam.

 

 

O defeito de construção verificado no fragmento acima é relativamente comum. Atribui-se, sem o desejar, uma ação a quem não a praticou.

Do modo como está redigido, o texto leva à interpretação de que quem confirmou que a vítima tinha um relógio caro no pulso foi a polícia. Ocorre, porém, que a intenção do redator era dizer que Mazzini (o “ladrão da luneta”) confirmava que a vítima tinha um relógio caro no pulso e, depois, avisava os comparsas.

Do ponto de vista da estrutura do texto, o que ocorre é o seguinte: a oração que inicia o parágrafo é subordinada à segunda (“após confirmar...” é oração sintaticamente subordinada à oração dita principal, que é “a polícia diz...”). Como a oração subordinada não tem o sujeito explícito, entende-se naturalmente ser esse sujeito idêntico ao da oração principal. Veja outro exemplo:

 

Após confirmar o fato, o delegado prendeu os ladrões.

 

Nesse caso, “o delegado” é o sujeito de “prender” e de “confirmar”. Se a ideia fosse dizer que quem confirmou o fato foi outro sujeito, este deveria ser explicitado na oração subordinada. Assim:

 

Após o investigador confirmar o fato, o delegado prendeu os ladrões.

 

No fragmento em questão, o sujeito de “confirmar” (verbo da oração subordinada adverbial temporal) nem mesmo está na oração principal (que é “a polícia diz”). Vai aparecer na oração subordinada substantiva objetiva direta (em outra oração subordinada, que não tem relação direta com a subordinada adverbial temporal).

Para organizar esse período, seria necessário fazer uma inversão sintática, de modo que o objeto direto do verbo “dizer” (aquilo que a polícia diz) fosse “que Mazzini passava a informação aos comparsas após confirmar que a vítima tinha um relógio caro no pulso”.

Veja abaixo como fica o período:

 

A polícia diz que, após confirmar que a vítima tinha um relógio caro no pulso,  Mazzini passava a informação por um rádio a dois comparsas, que, em uma moto, iam atrás da vítima e a roubavam.

 

 

 

 

 

 

03/10/2011

Havia ou haviam?

 

Sempre é bom lembrar que o verbo “haver”, quando empregado no sentido de “existir” ou de “ocorrer”, é impessoal.

Isso quer dizer que deve ser conjugado apenas na terceira pessoa do singular, qualquer que seja o tempo (há, houve, havia, houvera, houver, houvesse etc.).

O mesmo vale para os auxiliares do verbo “haver” em construções do tipo “deve haver”, “pode haver”, “vai haver”, “há de haver” etc. 

No fragmento abaixo, o redator tratou como sujeito aquilo que é objeto direto:

 

No seu bolso, os policiais da Deatur encontraram outros dois relógios de luxo, da marca Rolex. Na casa dele, haviam outros 14 relógios.

 

 

Como nessa acepção não admite sujeito, o verbo “haver” deve permanecer no singular:

 

No seu bolso, os policiais da Deatur encontraram outros dois relógios de luxo, da marca Rolex. Na casa dele, havia outros 14 relógios.

 

 

O verbo “haver” pode admitir o sujeito, mas isso geralmente ocorre em situações formais (“Nunca houveram o que perderam”, “Não houvemos o resultado pretendido” etc.). Entre as menos formais (e mais frequentes) estão aquelas em que é empregado como auxiliar: “Eu hei de vencer”, “Eles haverão de entender isso em algum dia”, “Eles haviam chegado antes do anoitecer” etc.

 

 

30/09/2011

Ambiguidade é defeito de construção

Nicole Richie colocou silicone no cirurgião de Kate Hudson

O título acima é um daqueles que merecem lugar de honra na galeria das célebres frases ambíguas. Ao pé da letra, como se diz por aí, o cirurgião de Kate Hudson foi quem recebeu o implante de silicone, colocado por Nicole Richie.

É claro que o leitor dispensa a interpretação absurda, mas não deixa de percebê-la. Sua atenção é, naturalmente, desviada do foco da notícia.

Cabe perguntar o que, linguisticamente, leva a essa duplicidade de sentidos na frase. Na linguagem popular, quando dizemos que “fulana colocou silicone”, queremos dizer que ela recebeu implantes de silicone no corpo – quem os colocou não foi ela, mas, por óbvio, o cirurgião. Ora, se fosse apenas “Nicole Richie colocou silicone”, a frase possivelmente não despertaria a atenção, mas a segunda parte (“no cirurgião de Kate Hudson”) é que tira da rota o sentido pretendido.

O que se pretendia dizer era o seguinte:

 

Cirurgião de Kate Hudson colocou silicone em Nicole Richie

Pode, entretanto, o redator entender que a ênfase da notícia sofreria alteração com essa mudança, já que passaria a recair sobre o cirurgião, não sobre Nicole Richie. Nesse caso, resta dar tratos à bola para encontrar a formulação ideal – sem ferir o princípio da clareza!

Seguem, abaixo, mais sugestões:

 

Nicole Richie teve silicone implantado por cirurgião de Kate Hudson

Silicone de Nicole Richie foi posto por cirurgião de Kate Hudson

 

29/09/2011

“Ser abusado” – evite a voz passiva

 

A garota, ainda segundo a polícia, contou que foi abusada pelo pai dos 8 aos 16 anos.

 

 

O verbo “abusar” é transitivo indireto, ou seja, seu complemento é introduzido por uma preposição. Daí serem corretas construções como “O pai abusou sexualmente da filha” ou “O redator abusou do emprego do gerúndio”.

É importante lembrar que os transitivos indiretos não admitem a voz passiva (é por isso que não dizemos que “alguém é gostado”, por exemplo). Conclui-se, assim, que, na voz passiva, não se emprega o verbo “abusar”.

Em algumas regiões do Brasil, dizer que alguém “é abusado” significa dizer que a pessoa é atrevida, confiada, intrometida. Nesse caso, a forma de particípio do verbo “abusar” atua como adjetivo. Não se trata, nesse caso, de voz passiva.

Para evitar o defeito de construção que se vê no trecho em epígrafe, o ideal é usar um verbo transitivo direto de significado semelhante ou empregar o verbo “abusar” na voz ativa. Abaixo uma sugestão de correção:

 

 

A garota, ainda segundo a polícia, contou que foi molestada sexualmente pelo pai dos 8 aos 16 anos.

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